UM DIA DE SETEMBRO

Na madrugada de 4 para 5 de setembro de 1972, um comando do grupo terrorista Setembro Negro, ( uma facção da Organização para a Libertação da Palestina – OLP) invadiu a Vila Olímpica de Munique (local onde se alojavam os atletas que competiam nas Olimpíadas daquele ano), atacando a seguir o dormitório dos atletas israelenses, matando dois de imediato e fazendo os restantes de refém. Foi o começo de um dia de horror que iria deixar um saldo de 17 mortos entre reféns, terroristas e um policial alemão.

Passados 45 anos, num triste balanço da operação, destacamos os seguintes pontos a serem considerados como lições para eventos futuros:

– Na ânsia de se redimir de seu passado turbulento, a Alemanha Ocidental tentou apagar qualquer ponto em comum com as olimpíadas de 1936, as quais se deram sob a diretrizes do nazismo. Assim sendo, a segurança dos jogos de 1972 foi a mais relaxada possível, preparada que estava apenas  para lidar com bêbados e falsificadores de ingressos, o que permitiu a infiltração de terroristas armados ;

– O país ainda não tinha entrado no radar do terrorismo internacional , desta forma  não havia contingente policial ou das Forças Armadas especializado no seu combate. A competente ajuda oferecida Israel foi recusada (o governo alemão nega que ela tenha sequer existido);

– Se por um lado sobrou boa vontade do governo alemão em resolver rapidamente a questão, pelo outro também se esbanjou amadorismo, pois a polícia não isolou corretamente o local , não interrompeu o fornecimento de energia e nem cerceou comunicações, ao ponto dos terroristas serem alertados pela TV da patética ação dos policiais trajando agasalhos esportivos ao tentarem assaltar o prédio  pelo telhado ;

– As negociações se deram da forma mais amadorística possível, com altas autoridades governamentais envolvendo-se diretamente nas conversações, ao invés de enviarem intermediários profissionalmente qualificados, os quais exigiriam contrapartidas graduais dos terroristas;

– Também não procuraram obter o principal ativo necessário à uma ocorrência com reféns: O TEMPO. Tempo para cansar os sequestradores, para pensar alternativas e para planejar e preparar  operações de resgate. Ao invés disso, o inexperiente governo local cedeu logo;

– Esses negociadores amadores também subestimaram a quantidade de terroristas envolvidos na operação (acreditaram que havia de 04 a 05 homens, quando na verdade eram 08) , o que iria se revelar fatal na malograda tentativa de resgate;

– A ação subsequente da polícia que resultou no mortal tiroteio no aeroporto de Fürstenfeldbruck foi mal coordenada, com uma cadeia de comando confusa e o que é pior – ocorreu à noite, uma condição ambiental que exige uma rigorosíssima preparação, além de treinamento adequado e específica doutrina de procedimentos;

– Os policiais envolvidos não tinham treinamento em operações especiais, e até onde se sabe não faziam parte de uma equipe anteriormente integrada e familiarizada entre si, nem tiveram tempo de ensaiar no local ou em ambiente semelhante. Só se aventou a possibilidade de empregar veículos blindados quando o tiroteio já se iniciara;

– Para um total de 08 terroristas, deveria haver pelos menos 16 snipers (atiradores)  da polícia, mas foram providenciados/posicionados apenas 05;

– Esses policiais não receberam miras especiais nem sistemas de visão noturna, além de seus rifles carecerem das condições técnicas apropriadas ao cumprimento da missão;

– Não foram fornecidos equipamentos de rádio aos atiradores, bem como não foi estabelecida uma rede de comunicações coordenando as diferentes forças envolvidas na operação;

– Por fim,  não houve coordenação com os pilotos dos helicópteros que trouxeram reféns e terroristas , pilotos esses que deveriam ter sido instruídos a pousar suas aeronaves em posições que favorecessem as linhas de tiro dos snipers e dificultassem o abrigo dos terroristas.

Para melhor ilustrar os tópicos elencados neste texto, selecionamos o trailer do excelente  documentário do diretor  Kevin Mac Donald (Um dia de Setembro) bem como do filme “Munique”, de Steven Spielberg.

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One Comment

  1. Parabéns ROBINSON, por nos brindar com mais este COMENTÁRIO TÉCNICO OPERACIONAL, que sirva de lição aos aventureiros que sofrem da já famosa “SÍNDROME DE MOOTLEY”, que na ânsia de receber condecorações (medalhas), atropelam a Doutrina e todos os Procedimentos, pondo em risco a Equipe Tática, as Vítimas e aqueles que deveriam ser Instrumento da Negociação, mas que acabam se transformando em Pseudo Negociadores. Você disserta com muita propriedade, algo básico em qualquer crise, que está ao alcance de qualquer Profissional de Segurança Pública, ação da qual depende o sucesso ou o fracasso da Operação; alguns chamam de forma pejorativa “cercar galinha”, nós como membros de Equipe de Negociação chamamos de “ISOLAMENTO”. Os desavisados chegam ao local e já querem estabelecer contato com os tomadores, ceder aos pedidos dando tudo que pedem. Quando chega a Equipe Tática, todas as besteiras possíveis e imagináveis já foram feitas, em nome da “SÍNDROME DE MOOTLEY”. Perde-se muito tempo tentando convencer os “mootleys” da necessidade do ISOLAMENTO, para o bom andamento das ações. Com o advento de decretos atribuindo “poder de polícia” pessoas não contidas no Aparato Policial, ainda não aprenderam que PRIMEIRO INTERVENTOR NÃO É NEGOCIADOR TÉCNICO, SE CONSIDERAM DONOS DA OCORRÊNCIA, PARA INFELICIDADE DAS VÍTIMAS.

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