SERENIDADE, MATURIDADE E CONSCIÊNCIA: ALICERCES DA LIDERANÇA (TERCEIRA PARTE)

 

Em adição aos posts anteriores, hoje vamos tratar de um dos atributos mais importantes dentre os que compõem a liderança: a consciência. Se por um lado a serenidade preserva o equilíbrio do líder e a maturidade lhe confere sabedoria, é a consciência que, lastreando suas decisões numa percepção consistente do mundo , lhe confere legitimidade.

O líder precisa perceber as complexidades do ambiente a sua volta e quantificar o impacto de suas decisões, uma vez que lhe é dado o poder de arbitrar sobre as vidas e destinos de seus semelhantes.

A liderança desprovida de lucidez conduz a desastres muitas vezes até maiores do que aqueles provocados pela inação ou anarquia.
Consciência nas decisões é composta por experiência mesclada com bom senso e temperada pelo caráter. A busca do bem deve ser sempre a baliza maior da liderança.

Vamos ilustrar a importância da consciência com uma história muito controversa que aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial na França ocupada:

No verão de 1944, Paris se encontrava sob controle do exército alemão. Comandava a guarnição militar da cidade o general Dietrich Von Choltitz (1894-1966). Naquele abafado agosto europeu, já faziam dois meses que as tropas aliadas haviam desembarcado na Normandia, então era iminente a queda da Cidade Luz. Assumindo o comando daquela praça de guerra no dia 7 daquele mês, Choltitz teria recebido ordens de Hitler no sentido de destruir a cidade com explosivos, transformando-a num monte de escombros nos mesmos moldes de Stalingrado, Varsóvia e tantas outras.

As cargas de dinamite foram então instaladas e bastaria um comando seu para que a detonação ocorresse, transformando instantaneamente um dos grandes tesouros arquitetônicos da cultura ocidental em ruínas fumegantes. Mas ele nunca chegou a dar essa ordem.
Ao invés disso, Von Choltitz e seus homens capitularam em 25 de agosto de 1944. Reza a lenda que ele teria recebido um inquietante telefonema de Hitler com s seguinte pergunta:

– “General, Paris está em chamas ? “

Paris1324

Mas Paris estava intacta, pois Choltitz não obedeceu às determinações de Hitler e se rendeu ao General Leclercq e ao comandante da Forças francesas do interior, coronel Henri Rol-Tanguy. E é neste ponto que começamos nossos questionamentos.

O que leva um aguerrido e experiente general – que já lutara na Holanda, Itália e Rússia, além de ser um veterano da Primeira Guerra Mundial- a se recusar a cumprir uma ordem (ordem esta que veio dos lábios de um dos ditadores mais sanguinários que a humanidade já conheceu) ?
Existem várias versões para essa decisão . Vamos analisar apenas três delas :

1- Choltitz tinha razoável dose de certeza de que a Alemanha perderia a guerra e que era militarmente inútil sacrificar uma cidade diante de tais circunstãncias;

2- O general se apaixonou pela bela capital francesa (o que convenhamos, não é lá muito difícil !) ou

3- Ele percebeu que Hitler enlouquecera ao emitir uma ordem tão bárbara .
Ou até mesmo uma combinação destas três hipóteses.

Apesar dos historiadores contemporâneos não terem chegado a um consenso sobre o(s) verdadeiro (s) motivo(s) que levaram Choltitz a poupar Paris, uma coisa não pode ser negada: a consciência do general falou muito alto naquele momento. Ela sobrepujou suas convicções políticas, a doutrinação nazista e mesmo sua formação militar. Seu senso humanitário foi determinante, inobstante o fato de sua decisão colocar a própria família do general sob risco de represálias de Hitler.

Passadas sete décadas daquele verão, França e Alemanha são parceiras comerciais e políticas. Talvez esses laços não fossem tão fortes hoje se Choltitz tivesse arrasado Paris. Permaneceriam mágoas. Certamente haveria trincas nesta aliança tão delicada.
O que aprendemos com isto é a lição de que boas decisões tomadas por lideranças conscientes costumam produzir frutos que perduram positivamente pelas gerações vindouras. Isto chama-se legado.

Von Choltitz morreu em 1966, vitimado por enfermidades causadas pela guerra. Levou uma vida modesta até falecer, mas diversas altas autoridades militares francesas compareceram a seu enterro na Alemanha para prestar uma última homenagem ao homem que salvou Paris.

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http://www.robinsonfarinazzo.com.br/serenidade-maturidade-e-consciencia-alicerces-da-lideranca-primeira-parte/

Para enriquecer  o texto, disponibilizamos o trailer do filme “Diplomacia” (2014) . A seguir assista a um clip com cenas do filme “Paris está em chamas ” (1966)

https://www.youtube.com/watch?v=rO6jcH5khvE

https://www.youtube.com/watch?v=s7wkMqF9hqc

 

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