NÃO CUIDAR DAS PESSOAS É ARRISCAR O FUTURO DA SOCIEDADE

 

Tenho visto por aí vários casos em diversas organizações onde o sistema vigente penaliza as pessoas que pensam de forma diferente. Isto não é inteligente. Há que se aprender a trabalhar com estas pessoas, trazendo-as para nosso convívio e fazendo que deem o melhor de sua capacidade produtiva. Os diferentes têm muito a nos ensinar, e a convivência com a diversidade contribui para que ampliemos nosso horizontes.

Vamos a um exemplo prático? De 1922 a 1991, a União das Repúblicas Socialistas e Soviéticas (URSS) se constituiu num dos maiores e mais poderosos impérios que a história humana já viu. Com um enorme exército, forças nucleares e um onipresente aparato de segurança estatal, seus governantes tinham controle total sobre a população da Rússia e dos demais países que compunham a União Soviética. E aí começaram os problemas que um dia iriam levar a dissolução do Império: os dirigentes não confiavam no povo que governavam.

Na URSS, Você gastava mais tempo se defendendo do estado do que trabalhando em prol dele. Todo cidadão era culpado até que provasse inocência, enquanto nos países democráticos Você é sempre inocente até que se prove o contrário.

Vou contar uma historia dramática e pungente que ilustra bem essa tragédia e dá uma ideia do clima social vigente nesses países naqueles anos difíceis.

Sergei Pavlovich Korolev (1907-1966) era um engenheiro aeronáutico soviético. Mas não um engenheiro qualquer, pois além de sua formação ele possuía excepcionais habilidades na integração do design, organização e planejamento estratégico. Nos anos 1950, ele se tornou o chefe do projeto espacial da URSS, e sob sua batuta os soviéticos lançaram o primeiro satélite espacial (1957), o primeiro ser vivo a orbitar a terra (a cachorrinha Laika, um mês depois) , o primeiro homem no espaço ( Yuri Gagarin -1961) e provavelmente teriam chegado a Lua antes dos americanos se Korolev não morresse precocemente em 1966 aos 59 anos.

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Sergei Korolev

E porque ele morreu tão cedo ? As respostas são terríveis. Em 1938 , durante o brutal regime de Stalin, Korolev foi preso injustamente , torturado e enviado para um campo de trabalhos forçados na gelada Sibéria, onde as condições de trabalho eram as piores possíveis (sem roupas quentes e com pouca comida, milhares de prisioneiros morriam todos os meses). Quando abrandaram sua sentença em 1939, ele já havia perdido a maior parte dos seus dentes. Enviado para uma prisão onde podia trabalhar em projetos de aviação , seus talentos despontariam brilhantemente nos anos seguintes, mas ele nunca recuperaria plenamente a saúde.

Libertado, passou a chefiar o projeto espacial soviético, mantendo o seu país sempre a frente dos EUA na corrida espacial. Ele ganhou dezenas de prêmios na União Soviética por seu trabalho excepcional, e até o Comitê do Prêmio Nobel em Oslo queria laureá-lo, mas o governo da URSS vetou se nome para evitar ciumeira entre seus projetistas de foguetes!

Workaholic, teve um ataque cardíaco aos 53 anos (o primeiro de uma série) além de sofrer de insuficiência renal crônica . Precisou ser hospitalizado várias vezes ao longo dos anos seguintes. Tragicamente em 1966 , internado para o que deveria ser um procedimento cirúrgico simples, seu quadro evolui para um sangramento descontrolado no abdômen. Os médicos precisavam entuba-lo, mas suas mandíbulas, terrivelmente machucadas sob a tortura em 1938 (e que nunca cicatrizaram adequadamente) impediram que isso fosse feito. Ele morreu nove dias depois, sem jamais recobrar a consciência.

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Altas autoridades da URSS, inclusive Brezhnev, carregam o caixão de Korolev. A direita, seu túmulo no Kremlin

Depois de sua morte, a União Soviética nunca mais recuperou a primazia sobre os Estados Unidos, os quais chegaram a  Lua apenas três anos depois.
Mas o aviltamento de seus melhores filhos pela madrasta URSS não parava aí. Parte da elite intelectual fugiu da União Soviética e seus países satélites naquela época em direção ao Ocidente buscando uma vida melhor. Gente do calibre do escritor Aleksandr Solzhenitsyn (Prêmio Nobel de Literatura em 1970), o general Pyotr Grigorenko, os bailarinos Rudolf Nureyev e Mikhail Baryshnikov , o maestro Mstislav Rostropovich (que ganharia dezenas de prêmios, inclusive um Grammy), a tenista Martina Navratilova, o diretor de cinema Miloš Forman, e a medalhista olímpica Nadia Comăneci, os enxadristas campeões Viktor Korchnoi e Boris Spassky, só para começar.
Nenhuma sociedade sobrevive a esta sangria de cérebros, pois não se repõe talentos brilhantes assim da noite para o dia.

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O gigantesco foguete R-7, projeto da equipe de Korolev

Era isto ou ser condenado ao exílio interno, como aconteceu com o físico nuclear Andrei Sakharov (Nobel da Paz, 1975) e sua esposa, a ativista de direitos humanos Yelena Bonner bem como o matemático Natan Sharansky. Andrey Tupolev, um engenheiro aeronáutico do mesmo top de Korolev, era obrigado a projetar seus aviões na cadeia !!!

Não há país que consiga seguir em frente  tratando desta forma seus filhos que mais se destacaram. Na tentativa de acabar com a fuga de cérebros, a extinta Alemanha Oriental ergueu o muro de Berlim em 1961, um extenso e policiado complexo de altas cercas de concreto ou eletrificadas, complementadas por campos minados e guardas armados até os dentes.

No contraponto disto, tínhamos os EUA e a Europa, onde desigualdades sociais a parte, o cidadão tinha liberdade para fazer o que bem entendesse , falar o que lhe desse na veneta e por aí vai. Parece caótico, mas sociedades livres são mais produtivas, porque as pessoas podem tomar as iniciativas que acham mais válidas. Enquanto a URSS se vingava de seus dissidentes, internando muitos deles compulsoriamente em clínicas psiquiátricas, nos EUA os descontentes locais aprimoravam a sociedade em passeatas e protestos contra o establishment. A convivência e a tolerância com a diversidade ideológica contribuiu muito para expandir a consciência do Ocidente.

Embora talentos ainda possam vir florescer sob a sombra da adversidade, eles precisam do oxigênio da liberdade para adquirir viço !
Felizmente, não existe paralelo entre Brasil e URSS neste aspecto. Nosso povo não tem inclinações totalitárias e nem é conivente com extremismos. Mas por caminhos diferentes e de maneiras diversas, ainda desperdiçamos talentos, seja por abandono,  por preconceito, ou mesmo por puro descaso.

É hora de acordarmos para o fato de que nas favelas das grandes cidades ou nos sertões do Brasil profundo, perdemos a todo momento milhares de brasileirinhos que poderiam vir a se tornar um Korolev, um Einstein, mas que não chegarão lá porque não tem acesso a água tratada, a educação ou a cidadania. Precisamos nos conscientizar que, independente das riquezas naturais como minério de ferro ou petróleo, nosso maior capital é nossa gente, os Josés, as Marias, os Ribamar da vida, que com sua fé na vida e vontade de trabalhar, constroem todo dia este País.
O Brasil é viável porque tem pessoas maravilhosas. Está na hora de cuidarmos dessa gente !

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Uma das inúmeras estátuas de Korolev que existem na Rússia

Clique aqui para saber mais sobre o Muro de Berlim:

https://www.youtube.com/watch?v=LcuaaOnOJ-g

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2 Comments

  1. Excelente texto. Me pergunto quando tomaremos a consciência de que temos muitos talentos na parcela da sociedade esquecida por todos nós?
    Passam-se os anos e o que percebemos é menos investimentos na educação, até quando?

  2. Pingback: UMA MARCA MÁGICA !!! | Robinson Farinazzo

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