GERENCIAMENTO DE CRISE: O KNOW HOW DAS FORÇAS ARMADAS

Dizer que a essência da formação profissional do militar se pauta, basicamente, no aprestamento do mesmo para a guerra é, como nas palavras de Nelson Rodrigues, afirmar o óbvio ululante. A finalidade do trabalho dos soldados é intrinsecamente a condução de atividades laborais  em condições extremas.

É perfeitamente natural portanto, que detendo as Forças Armadas este nível otimizado de preparo e sendo uma reserva estratégica altamente organizada, móvel e confiável do País, os respectivos governos venham a empregá-las em situações de crise, conforme já aconteceu em diversas oportunidades no Brasil (militares chamados a revistar cadeias, suprir o trabalho da polícia militar em greves, etc).

Isto, também ocorre normalmente em outros países, sendo um exemplo bem acabado o fato de, durante uma greve de mineiros na Inglaterra em 1984, o governo de Margareth Thatcher elaborou planos de empregar o Exército de sua Majestade para garantir o estratégico fornecimento de carvão, crucial à matriz energética do país na época.

Dada esta gama de atividades para as quais venham a ser chamados a exercer suas competências profissionais, é de se inferir que os militares tenham uma cartilha previamente preparada para lidar com estas situações. E, é esta a nossa contribuição para a pauta de hoje: como estes profissionais procuram se antecipar às crises de vez que, para bem administrá-las, faz-se necessário a existência antecipada de um planejamento bem elaborado e factível.

Basicamente, os militares investem tempo, pessoal especializado e análise detalhada no planejamento de situações emergenciais, pois sabem que não é uma questão de SE os problemas vão aparecer, mas sim QUANDO o farão. Vamos analisar o processo que eles utilizam para elaborar esses planos?

1- Todos os riscos são mapeados – e isto é conseguido através de análise criteriosa do local de operações, características do público envolvido, ambiente político e social, possíveis desdobramentos, etc. Depois de levantados estes dados, são conduzidas diversas reuniões, “brainstormings” e painéis de debates.

Se for obtido o consenso de que as informações coletadas ainda não permitem o delineamento de um quadro razoável da situação, o mapeamento é reiniciado e aprofundado. Quando os mesmos se revelarem satisfatórios, são documentados e começa-se a trabalhar no sentido de evitá-los, minorá-los ou extingui-los;

2- Para cada risco levantado, prossegue-se uma análise aprofundada com a finalidade de se verificar a probabilidade de seu advento e o grau das consequências que a ocorrência do mesmo acarretará. Em função das conclusões obtidas, são elencadas providências e reservados recursos humanos e materiais para lidar com a situação, qual seja, a previsão logística começa a ser delineada. Dá-se também muita ênfase à parte de comunicações, de maneira a se manter o fluxo de informações e assegurar o fiel cumprimento das ordens ;

Navio Hospital: importante ferramenta no gerenciamento de grandes crises humanitárias

3- Cada situação tem sua própria natureza e devidas particularidades, logo as soluções devem ser customizadas em função destas características. Assim sendo, procede-se à elaboração de diretivas que nortearão a política de trabalho na esfera macro, e os escalões subsequentes seguirão os mesmos moldes, respeitadas suas esferas de atribuições. Como estes níveis mais operacionais já possuem um bom treinamento prévio, o que fazem é adaptar suas iniciativas e procedimentos às condições vigentes. Caso se constate a necessidade de adestramentos especiais, estes são providenciados nas instituições adequadas. Um exemplo bem completo desta situação é a preparação especial direcionada a civis e militares que atuarão em missões de paz no exterior ministrada no Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil (CCOPAB), também designado Centro Sérgio Vieira de Mello (em homenagem ao ilustre brasileiro que  foi Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos e morreu no Iraque), localizado na Vila Militar, cidade do Rio de Janeiro/RJ.

Briefings e reuniões são importantes para proporcionar informações de interesse coletivo.

4- Finalmente, temos a fase de implantação desse plano. Essa etapa é caracterizada por abrangente supervisão, rigorosas checagens e eventual reposicionamento de pessoal e material. Compara-se constantemente o cronograma previsto das operações com evolução da situação, e é nesse ponto que os militares surpreendem muita gente: diferente do que muitos imaginam, existe grande flexibilidade de pensamento de seus componentes, sendo reservada muita margem de manobra para eventuais adaptações e improvisações.

Ou seja, mesmo que a realidade dos fatos não espelhe totalmente a situação prevista, a liderança sempre saberá se arranjar com isto. Fato é, boa parte da competência de um comandante militar de qualquer arma reside em sua capacidade de adequar rapidamente às circunstâncias um plano que porventura precise de ajustes.

Diga-se de passagem, os quadros brasileiros das três Forças Armadas são exímios nesse quesito.

 Em suma, o “core” do trabalho de gerenciamento de crises dos militares é que, em seu respectivo nível, cada componente da organização conhece suas responsabilidades, entende seus afazeres e tem plena consciência dos limites institucionais à que está sujeito.

Capacitação, monitoramento e prevenção, é por isso que o Brasil confia nos seus militares.

Veja também :

http://www.robinsonfarinazzo.com.br/como-se-constroi-o-perfil-gestor-do-militar/

Assista os comentários do autor que complementam este post :

Posted in Uncategorized.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *