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quarta-feira, Abril 25, 2018
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SE O DUQUE DE CAXIAS NÃO FOSSE BRASILEIRO – SEGUNDA PARTE

“Vamos fechar as feridas. Vamos cuidar daqueles que lutaram, daqueles que são órfãos e das viúvas. Certo, agora somos um só país outra vez – a guerra acabou.”

                                                              (Abraham Lincoln)      

 

  

O ano de 1842 foi tumultuado para Luís Alves de Lima e Silva, o então Barão de Caxias. Alguns meses antes, ele pacificara a província do Maranhão na insurreição que entraria para a história como Balaiada. Mas não haveria descanso para o jovem General-Brigadeiro de 39 anos de idade. Em maio explode a Revolução Liberal na província de São Paulo e para lá segue Caxias. Vencida esta, volta ao Rio de Janeiro em julho, mas permanece apenas dois dias em casa com a família, pois estoura nova revolta, desta vez em Minas gerais. Esta só será debelada em 20 de agosto daquele ano, com a vitória do Barão na batalha de Santa Luzia.

Dois meses depois, Caxias segue para o Sul do Brasil que se encontrava em chamas. Tem a missão de comandar as tropas imperiais na luta contra os Farrapos, insurgentes gaúchos de orientação republicana. Lá chegando, reorganiza o Exército Imperial, que se encontrava em frangalhos. Ensaiando o “modus operandi“ que o tornaria vitorioso na sangrenta Guerra do Paraguai duas décadas depois, Caxias adotou, dentre outras providências:

– O restabelecimento da disciplina;

– Treinamento;

– Logística: uniformes, comida e, principalmente, a compra de cavalos e

-Reconhecimento & Informações– ele conseguiu, por muitas vezes, antecipar os movimentos do inimigo.

Parte para a ofensiva em fevereiro de 1843. Esta guerra só seria vencida por Caxias dali a dois anos.

A conduta dele no conflito dos Farrapos antecede a de Abraham Lincoln em duas décadas, no sentido de que Caxias, tal qual o grande presidente norte americano, não humilhou os vencidos, oferecendo-lhes uma paz conciliatória, que permitiu ao País seguir em frente. É verdade que em todas essas revoltas houve vez ou outra alguns excessos pontuais das tropas de Caxias? Certamente que sim, bem como do lado opositor. Mas, esta conduta particular de alguns não se coadunava com o caráter de seu líder. Lembremo-nos que por mais hábil, honrado e austero que um comandante militar seja, ele não é onipresente, muito menos onisciente.

Há que se recordar que todos os insurretos da Revolução Liberal foram anistiados em 1844. Faz-se necessário, também, um mergulho no tempo para se conscientizar das tristes condições daquela época. Dom Pedro II, o Imperador, era apenas um adolescente de 16 anos em 1842, com pouquíssimo capital político, em busca de legitimidade para seu trono e unidade para o Império. E, encontraria em Caxias o fiador da estabilidade de que carecia seu reinado.

       O político Caxias

Não fora este brilhante militar, só nas sedições abordadas na matéria de hoje, o Brasil perderia quase 1.500.000 km2 (Maranhão, São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, cerca de 17% do atual território nacional), e é provável que, caso vitoriosas essas revoltas, certamente  outras se seguiriam. Nunca teríamos o Brasil como o conhecemos hoje, pois ele fatalmente se esfacelaria. A liderança, muitas vezes é mais bem sucedida pelo mal que evitou do que pelo bem que legou.

De volta ao Rio de Janeiro, Caxias entra para a política, elegendo-se Senador, e continuando a servir Dom Pedro II com lealdade. Para sorte do monarca, a inteligência de Caxias foi maior do que sua ambição. Tivesse Caxias caído em tentações bonapartistas, o Brasil mergulharia no viciante ciclo do caudilhismo sul-americano. Não se deslumbrou com o poder: ele queria o melhor para o País.

Seis anos depois, em 1851, ele voltaria aos combates, desta vez contra as tropas argentinas naquela que ficaria conhecida como Guerra do Prata. Vitorioso, é promovido a Tenente General. Nos anos seguintes, se ele não enfrentou lutas no campo de batalha, suportou turbulências no instável clima político da corte. Certa vez, disse a um colega parlamentar uma frase que, passados um século e meio, tem sua validade até nos dias de hoje:

“Percebo o que quer dizer, a respeito do comportamento bizarro desses senhores, que não desejam governar o país, ao serem convidados a fazê-lo, por preferirem governar o governo. Estão completamente enganados sobre mim, já que eu não estou disposto a servi-los como um cavalinho de pau.”

Mas a sua folha de serviços ao Brasil não parou aí. Uma década depois, ele enfrentaria, na maior ameaça que o Império brasileiro sofreu, o grande desafio de sua carreira: a Guerra do Paraguai, tema de nosso próximo capítulo.

Para ilustrar o post de hoje, eu deixo Vocês com um belíssimo trailer da minissérie “A Casa das Sete Mulheres”, romance de Letícia Wierzchowski que narra a saga de uma família gaúcha durante a Guerra dos Farrapos e foi  levado às telas da Rede Globo, em 2003.

Leia a primeira parte desta história em :

http://www.robinsonfarinazzo.com.br/se-o-duque-de-caxias-nao-fosse-brasileiro/

                                                                                                Continua…

ANTES DE PARTIR PARA A ESCALA, VOCÊ DEVE TESTAR A VALIDADE DO CONCEITO

“Em se tratando de recursos públicos, é preferível gastar pouco aos poucos, com critério, avaliando resultados em períodos curtos e descartando pelo caminho práticas ineficazes ou de eficiência limitada.”

                                                        (Robinson F. Casal)

É prática comum, na indústria aeronáutica, testar exaustivamente (em túneis de vento num primeiro momento e com pilotos de provas depois) um modelo de avião ou helicóptero antes de partir para a sua produção em série. Fazemos isto para detectar eventuais falhas ou erros de projeto ocultos. E procuramos trabalhar numa simbiose muito afinada com o cliente de maneira que o mesmo seja co-partícipe do desenvolvimento e aperfeiçoamento do projeto. Esta parceria contribui para a diminuição de custos e resulta em aeronaves mais seguras. Desta maneira, quando partimos para a produção em escala, a maior parte dos limites já é conhecida e o conceito proposto, com as correções necessárias, já está consolidado. Dito isto, vamos à nossa pauta de hoje.

Preparando modelo de aeronave em túnel de vento

Do meu ponto de vista de contribuinte, parece-me espantoso como nossos governantes se utilizam banalmente da expressão “bilhões de reais” quando defrontados por qualquer demanda da sociedade. Vem uma crise de grande impacto midiático  e logo aparece na TV um ministro dizendo “Vamos destinar “X” bilhões para o plano “Y”. Será que essas pessoas não percebem que mais cedo ou mais tarde vai sobrar crise e faltar bilhões? Que a Fazenda Nacional não é cartola mágica de onde se extraem recursos mediante o mero proferir de palavras cabalísticas? E que a crise não se formou do nada, ela é fruto de contínuo descaso e reiterado descontrole dos assuntos públicos. Não seria mais inteligente (e eficiente), trabalhar como a indústria aeronáutica o faz, no sentido de planejar um pouco mais, mapear os riscos e fazer investimentos prévios que evitam que as crises se transformem em bola de neve ?

Este conceito serve para todas as áreas em que o poder público injeta recursos. Cansamos de ver hospitais do Estado que adquirem (muitos) equipamentos que não serão usados, compram uma dezena de itens quando apenas um seria necessário, ou deixam estragar por armazenamento ineficiente caríssimos medicamentos  que salvariam vidas. Todas estas incúrias não ocorreriam se fosse destinado um pouco mais de tempo no planejamento das ações governamentais. É preciso extinguir a chaga pública de gastar em escala bilionária sem antes chancelar sua necessidade/eficácia.

Eu acredito que com planejamento, honestidade e crença no futuro, o Brasil é viável.

Você também poderá gostar de:

http://www.robinsonfarinazzo.com.br/entrevista-a-revista-fuerzas-militares/

Assista o vídeo onde um piloto de provas explica alguns dos testes necessários a aprovação de um avião de combate :

ENTREVISTA A REVISTA “FUERZAS MILITARES”

Prezados amigos:

Concedi uma entrevista a revista colombiana “FUERZAS MILITARES”.

Este órgão de imprensa especializada, cuja sede se localiza na cidade de Medellin, na Colômbia, dedica-se há mais de 14 anos à divulgação do trabalho de militares profissionais ao redor de todo o mundo.

O entrevista abordou, dentre outros tópicos, a experiência adquirida nos projetos aeronáuticos que já participei , bem como o trabalho que desenvolvo atualmente como articulista e palestrante. Espero que Vocês gostem !

A mesma pode ser acessada em :

http://www.fuerzasmilitares.org/proceso-de-paz/7282-paz-farinazzo.html

SE O DUQUE DE CAXIAS NÃO FOSSE BRASILEIRO

 

 

                “Se um herói militar do porte do Duque de Caxias tivesse nascido nos Estados Unidos, ele não receberia este título de nobreza por ser aquele país uma República, mas os americanos  fariam dezenas de filmes em sua homenagem”

                                                              (José Antonio F. Casal)

 

Nos meses finais do ano da graça de 1866, as condições eram adversas para as tropas do Brasil envolvidas em operações militares na Guerra do Paraguai. Em que pesem alguns sucessos táticos iniciais, a Marinha e o Exército brasileiros sofreram uma acachapante derrota em Curupaiti, e o componente terrestre nacional sofria com doenças, treinamento deficiente e problemas de logística. Foi este o quadro que o Marechal  Luis Alves de Lima e Silva (que entraria para a História como Duque de Caxias), nos seus provectos 63 anos, encontrou no dia 18 de novembro daquele ano, quando assumiu o comando da campanha.

Na atividade militar de qualquer país, à ninguém é oferecida uma missão de responsabilidade se você não tiver experiência prévia comprovadamente bem sucedida. E Caxias tinha, além da tarimba, um talento excepcional para o comando de tropas, já demonstrado em décadas de combates na Bahia, Maranhão, São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Argentina e Uruguai.

Sob sua batuta, o Exército Brasileiro que voltaria à ofensiva dali a oito meses, já seria  outra corporação, mais saudável, melhor treinado, bem abastecido e soberbamente comandado.

E, sobretudo, vitorioso como tudo o que o Duque fez em sua vida a serviço do Brasil.

A obra de uma vida pública não pode ser avaliada de maneira serena no espaço temporal de  meses ou anos, pois é trabalho que exige décadas ou séculos de madura reflexão. Tentativas houve de algumas correntes de historiadores em comparar Caxias a Napoleão Bonaparte, mas este autor as considera imprecisas, preferindo emular seus feitos aos do Príncipe russo Grigori Potemkim (pela capacidade de garantir o império da Czarina Catarina II – A Grande) e a sua personalidade a do General (e, posteriormente, Presidente) americano Dwight Eisenhower  (dado seu modo conciliador e habilidade política).

Caxias foi um homem que pautou o interesse público nacional como meta e filosofia de vida. Sua existência  foi toda dedicada ao Imperador, empregando suas energias a manter íntegro o País que ele tanto amou, defendendo-o dos invasores externos e das dissensões internas. Talvez ele tenha percebido, melhor do que ninguém, que para um País recém- formado como era o caso do Brasil, estar sob a égide de um poder central era a única garantia de não se fragmentar como ocorreu com as ex-colônias espanholas no resto do continente. Ele não garantiu apenas um Império: legou-nos unidade e um projeto de convivência de dimensões semi-continentais que perdura até os dias de hoje.

Não fosse sua atuação nas revoltas da Balaiada (1838-41), Revolução Liberal (1842) e Guerra dos Farrapos (1835-45), o Brasil seria uma país menor e , provavelmente, menos seguro. E em todos esses conflitos, seu maior mérito  foi ser bem sucedido em oferecer uma paz aos vencidos que qualquer arquiteto de impérios julgaria impraticável.

Na juventude de Caxias, a Monarquia era o certo possível para o Brasil. Mas o Império envelheceu com ele, e morreu pouco depois que ele se foi.

A série de artigos que se inicia agora tem por objetivo colocar mais luz sobre a vida desse brasileiro notável, que se destacou muito além da profissão das armas, seja como político, administrador ou humanista. E, também, visa deixar no ar a pergunta:

Quando vamos nos conscientizar que temos pleno e legítimo direito a admirarmos as coisas acertadas que nossos antecessores fizeram ?

 Oxalá nosso futuro não repita nossas tragédias, mas também não é demais pedir que continue a emular nossos acertos, pois eles são muitos e precisamos conhecê-los.

E o Duque de Caxias, sem dúvidas, foi um de nossos  maiores acertos .

                                                                                                                 (CONTINUA…)

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http://www.robinsonfarinazzo.com.br/um-general-para-ser-lembrado-e-uma-guerra-para-nao-ser-esquecida/

Assista o filme que resume a vida de Caxias:

UMA MARCA MÁGICA !!!

Eu acredito no Brasil. Existem aqueles que dizem: nosso País tem esse ou aquele defeito (como se o resto do mundo fosse perfeito), as coisas aqui sempre vão dar errado por isso ou aquilo etc, mas eu não concordo com isso. O que eu penso é que somos um País enorme, e por consequência disso, também temos grandes desafios, mas que NÃO SÃO IMPOSSÍVEIS DE SEREM SUPERADOS !

Agora, só vai dar certo como País se, antes de qualquer coisa, ACREDITARMOS QUE É POSSÍVEL E QUE É BOM SER BRASILEIRO. Digo isto porque nada pode ser concretizado sem que primeiro se creia possível. Precisamos derrotar a FRACASSOMANIA e extinguir nosso complexo de vira-latas. Há que se acender a chama da auto-estima do brasileiro.

É preciso, faz-se extremamente necessário que demos tempo ao tempo para que as coisas se acertem, e enquanto esse dia não chega, há que se fazer o melhor possível, trabalhando com honestidade e firmeza e propósito. Há que se ter esperança, fé na vida e crença no futuro que, eu tenho a mais absoluta certeza, há de chegar antes do que pensamos.

E foi com base nesta certeza  que nós criamos em diversas redes sociais, há quase um ano, o Grupo “AVIAÇÃO, INOVAÇÃO & GESTÃO” (link para Facebook : https://www.facebook.com/groups/robinsonfarinazzo/), (para Linkedin: https://www.linkedin.com/groups/7047048 ). Mais do que uma congregação de pessoas que gostam de aviões e helicópteros, esta singela agremiação visa trazer a luz práticas de trabalho e convivência progressistas que alavanquem novas conquistas.

Trata-se, sobretudo, de uma tribuna livre onde se busca promover o Brasil.

Ao atingirmos, no dia de hoje, a impressionante cifra de 14.000 integrantes no Grupo “AVIAÇÃO, INOVAÇÃO & GESTÃO”, queremos agradecer a participação e o carinho de todos nossos leitores. E, dizer que a razão desse espaço existir são Vocês, que nos oferecem a sua amizade e confiança, contribuindo com seu otimismo, sua vibração e seu entusiasmo, para que possamos difundir as práticas inovadoras da aviação civil e militar para um público cada vez maior.

Muito obrigado por tudo, rumo aos 20.000 integrantes e com fé no Brasil !


Vamos compartilhar e trazer mais amigos !

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OS 10 SEGUNDOS DO ALMIRANTE ARLEIGH BURKE

 

“A Marinha tem uma tradição e um futuro – e nós olhamos com orgulho e confiança em ambas as direções”

                                          (Almirante de Esquadra Arleigh Albert Burke)

 

              Por mais rigorosas que sejam as exigências que se faça a um oficial no exercício de suas funções em qualquer  Marinha que se analise, as cobranças de carreira dirigidas ao mesmo em época  de paz nem de longe se comparam às demandas dos tempos de guerra ou de crise. Fato é, existem militares que se sobressaem muito bem na rotina previsível dos quartéis onde erros podem ser mascarados, mas que talvez não tivessem tanta sorte se postos a prova em situações onde coragem, engenho e tirocínio lhe fossem exigidos o tempo todo. Na guerra, o mais leve engano fica gritantemente perceptível a crítica e condenação de todos.

           A história que será contada a seguir se enquadra perfeitamente na afirmação acima, pois narra a vida e a carreira de um oficial que, em seus 42 anos a serviço da US Navy,  jamais conheceu tempos amenos. E se provou um profissional extremamente valoroso nos anos difíceis que seu país enfrentou.

            Arleigh Albert Burke, um descendente de imigrantes suecos, nasceu no interior do EUA, em Boulder, Colorado (1901), e formou-se em Annapolis em 1923. Teve uma carreira naval plena de aprendizado  (servindo por cinco anos no encouraçado USS Arizona ele foi chefe da artilharia, oficial de torpedos e encarregado da navegação dentre outras funções). A estas comissões se somariam os diversos cargos que exerceu em vários contratorpedeiros na década de 30.

                                                                   Figura 1: Almirante Arleigh Burke

            O início da  Segunda Guerra Mundial na Europa iria encontrá-lo no comando do USS Mugford  (DD-389). Sob Burke, o navio sagrou-se campeão de tiro, máquinas e comunicações e, como inegável prova da competência e liderança de seu comandante,  na época foi dito por todos  que aquele destroyer se enquadrava perfeitamente na clássica definição de “um navio feliz”.

           Tão feliz quanto a América, a qual até 1941 se mantinha próspera e fora da guerra. Mas, em 7 dezembro daquele ano os japoneses atacaram a base americana de Pearl Harbour nas Ilhas Havaí, permitindo que toda uma geração de marinheiros americanos que jamais sairiam do anonimato em tempo de paz revelassem seus talentos guerreiros. Dentre eles sobressaíram-se os almirantes King, Nimitz, Mitscher, Fletcher, Halsey e Spruance, mas o “Captain” (Capitão de Mar e Guerra) Arleigh Burke foi seguramente o comandante de contratorpedeiro (ou destroyer) mais famoso de toda a guerra .

              E foi por vontade própria que Burke, que até aquela data fatídica se encontrava servindo num monótono cargo administrativo,  seguiu ao encontro do seu destino, tendo servido durante toda a campanha contra os japoneses no Pacífico Sul. Comandando um esquadrão de destroyers na conquista de Bougainville (nas Ilhas Salomão) em novembro de 1943, ele travaria  22 engajamentos contra o inimigo em apenas 4 meses.

              Foi sob sua liderança que  tornou-se lendário o Esquadrão de Contratorpedeiros 23 (Little Beavers), o qual cobrou um preço alto aos japoneses: destruiu um cruzador, nove destroyers, um submarino, vários barcos menores e 30 aeronaves. O lema do CMG Burke era “ Os contratorpedeiros que fizerem contato com o  inimigo devem atacar o mesmo sem esperar ordem do Comandante de Força”.  Por esta época ele já fazia jus ao apelido pelo qual era conhecido em toda a Marinha : “Burke 31 nós”, em alusão a velocidade (espantosa para os padrões da Segunda Guerra) que obrigava os navios sob seu comando a manter em combate. Amado pelos armamentistas, era o terror dos maquinistas !

              Em março de 1944, Burke é nomeado Chefe do Estado Maior  (CEM) da Força Tarefa 58 (5ª Frota de Porta Aviões Ligeiros), sob ordens do célebre Almirante (Aviador Naval) Marc Mitscher. Este arranjo atendia uma sábia diretiva do Comandante de Operações Navais (Chief of Naval Operations – CNO) , Almirante Ernest J. King, segundo a qual Comandantes de Forças de Superfície como o Almirante Spruance deveriam ter como CEM um oficial aviador, e comandantes de Forças Aeronavais teriam um oficial de superfície como chefe de estado maior. No início, nem Burke nem Mitscher ficaram muito satisfeitos com este arranjo, mas com o tempo formaram uma dupla inseparável e de altíssima sinergia, arquitetando todos os sucessos da Task Force 58 e enfrentando até os ferozes ataques dos kamikazes japoneses. Ambos ainda trabalhariam  juntos  mais uma vez no pós guerra até o falecimento de Mitscher em 1947.

             A Guerra da Coréia (1950-53) vai encontra-lo no posto de Contra-Almirante, e ele desempenharia papel relevante (além de ganhar muita experiência em assuntos estratégicos) nas negociações de trégua entre as forças das Nações Unidas (ONU) e o exército da Coréia do Norte (KPA).

              Volta aos EUA em 1954 onde exerceu diversos cargos, inclusive o de Comandante da Força de Contratorpedeiros do Atlântico. Nesta altura de sua carreira acontece um fato que é considerado perfeitamente meritório para alguns mas redondamente injusto para outros: Burke foi promovido diretamente de duas para quatro estrelas – ou seja, ele nunca passou pelo posto de Vice Almirante. A verdade é que esta promoção relâmpago estava lhe abrindo as portas para o cargo de Comandante de Operações Navais (CNO), que assumiu efetivamente em 1955, praticamente no auge da Guerra Fria.

           Se havia dúvidas de alguns almirantes a respeito da competência de Burke para o cargo, ela rapidamente desapareceria em virtude de suas realizações. Senão, vejamos:

– Ele apoiou o brilhante Almirante Hyman Rickover no desenvolvimento da primeira frota de submarinos nucleares do mundo;

– Instituiu o programa de mísseis balísticos lançados de submarinos (uma aposta inovadora, mas de alto  risco á época, porque poucas pessoas acreditavam ser possível miniaturizar eficientemente  uma ogiva nuclear ao ponto da mesma  caber num míssil lançado de submarino) – e veio o o gigantesco Projeto Polaris;

– Um ponto a favor de sua capacidade de descortino é o fato de que embora Arleigh Burke tenha passado toda a sua carreira naval na Força de Superfície da US Navy ele soube, como almirante, se apartar de qualquer preferência particular, compreendendo  de maneira isenta que investir em submarinos era o melhor caminho para a Marinha e para os EUA naquele momento – e isto é pensar grande;

– Como resultado destas decisões, os EUA passaram a contar com uma força nuclear submersa difícil de ser detectada e indestrutível sob o ponto de vista de sua totalidade.

Figura 2: Míssil Polaris

             A prova irrefutável da sabedoria e engenhosidade desta decisão é o fato de que nunca houve um conflito nuclear entre os EUA e a URSS de vez que , dentre outros fatores, os soviéticos tinham plena ciência  que, mesmo que conseguissem destruir boa parte da força nuclear de seu oponente baseada em terra e nos céus num primeiro golpe, jamais poderiam garantir a destruição total das forças nucleares submersas da US Navy. Só lhes restou também investir em armas assim, ficando assegurado o equilíbrio. Menos mal.

            Burke passou a reserva da Marinha em 1961, depois de ter servido como CNO por três turnos nas administrações do presidentes Eisenhower e Kennedy.

Figura 3: Selo em homenagem a Burke

 

O LEGADO POSITIVO DE UMA LENDA DA MARINHA

               Muito das tradições de aguerrimento e agressividade em combate da US Navy no pós guerra presumivelmente se devem ao espírito que o Almirante Arleigh Burke lhe infundiu nos anos que foi CNO. É bem provável que ele tenha ajudado bastante a moldar o caráter ofensivo da mesma. A necessidade disto se explica porque eram os anos de disputa de espaço com o Bloco Comunista e a Marinha Americana era a linha de frente do Ocidente nesse confronto. Foi o homem certo para a missão.

                 Mas ele também tinha um lado profundamente humano. Dizem que certa vez num combate no Pacífico, o então Comandante Burke – um perfeccionista incorrigível e extremamente exigente consigo mesmo – não teria ficado satisfeito com a própria conduta durante uma batalha que, apesar de indiscutivelmente vitoriosa para os EUA, no seu entender poderia ter resultado em perdas ainda maiores para o inimigo japonês não fora a demora dele próprio em dar a ordem para abrir fogo. Nesse momento,  numa flagrante prova de humildade e capacidade de fazer auto-crítica, ele diz a um jovem Guarda Marinha que se encontrava próximo:

      “A diferença entre um oficial brilhante e um medíocre é de apenas dez segundos”

 

              Este momento raro nos diz muito sobre a personalidade de Burke e o que se espera de um oficial da Marinha. Ao admitir seu erro para um oficial que iniciava a carreira naval, ele mostrou que um chefe militar precisa saber administrar suas fraquezas, que todos somos falíveis e teremos que reconhecer e conviver com estas deficiências. E que devemos nos  preparar durante toda a trajetória profissional  para tomarmos decisões críticas da forma mais correta possível, porque a vida não nos avisa previamente a data e a hora em que elas se farão necessárias.

             A existência de uma Marinha pode ser medida em séculos. Mas a sua essência, seus valores e, principalmente, seu compromisso para com o País ao qual serve, estes são decididos naqueles meros dez segundos em que sua liderança decide fazer o que é correto. Seja na paz ou na guerra porque, dificilmente, quem decide errado na calma da paz terá capacidade para fazê-lo na agitação da batalha.

            Se fica algo de Arleigh Burke para nós , integrantes da Marinha do Brasil, é que devemos nos preparar o tempo todo para o exercício de nossas funções. Isto se aplica tanto a civis como a militares, a oficiais e a praças. A busca do aperfeiçoamento deve ser constante e infinita, diurna e noturna, e nenhuma oportunidade de aprendizado pode ser desperdiçada. Devemos fazer com que todos os nossos dias tenham valido a pena por nele  termos nos tornado mais preparados do que a etapa anterior. Somos melhores quando reconhecemos que ainda falta muito para sermos apenas bons.

            Mas há algo muito mais importante do que tudo na história de vida de Burke: conforme já foi dito acima, ele começou a vida como um filho de imigrantes suecos pobres do interior do estado do Colorado. Com esforço e trabalho duro, chegou ao posto mais importante da US Navy (nos EUA, o Comandante de Operações Navais é nomeado pelo Presidente da República). Uma sociedade que oferece estas oportunidades a imigrantes mostra ao mundo que, inobstante seus problemas intrínsecos, acredita no poder e na força da igualdade entre os homens, estando aberta a todas as línguas, credos e nacionalidades.  Os EUA são uma nação onde um homem vale, acima de tudo , por sua capacidade de se dedicar ao bem comum de seus pares, independentemente de suas origens.

             O almirante Arleigh Burke faleceu em janeiro de 1996, aos 94 anos de idade, uma vida plena e longa dedicada totalmente a Marinha e ao País a quem ele amou e serviu tão bem. Ele teve a graça de ver, ainda  em vida no ano de 1988 , o batismo de uma das melhores classes de contratorpedeiros de todos os tempos da US Navy e que merecidamente leva seu nome : os DDG Arleigh Burke.

Figura 4: Destroyer Classe Arleigh Burke

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NÃO CUIDAR DAS PESSOAS É ARRISCAR O FUTURO DA SOCIEDADE

 

Tenho visto por aí vários casos em diversas organizações onde o sistema vigente penaliza as pessoas que pensam de forma diferente. Isto não é inteligente. Há que se aprender a trabalhar com estas pessoas, trazendo-as para nosso convívio e fazendo que deem o melhor de sua capacidade produtiva. Os diferentes têm muito a nos ensinar, e a convivência com a diversidade contribui para que ampliemos nosso horizontes.

Vamos a um exemplo prático? De 1922 a 1991, a União das Repúblicas Socialistas e Soviéticas (URSS) se constituiu num dos maiores e mais poderosos impérios que a história humana já viu. Com um enorme exército, forças nucleares e um onipresente aparato de segurança estatal, seus governantes tinham controle total sobre a população da Rússia e dos demais países que compunham a União Soviética. E aí começaram os problemas que um dia iriam levar a dissolução do Império: os dirigentes não confiavam no povo que governavam.

Na URSS, Você gastava mais tempo se defendendo do estado do que trabalhando em prol dele. Todo cidadão era culpado até que provasse inocência, enquanto nos países democráticos Você é sempre inocente até que se prove o contrário.

Vou contar uma historia dramática e pungente que ilustra bem essa tragédia e dá uma ideia do clima social vigente nesses países naqueles anos difíceis.

Sergei Pavlovich Korolev (1907-1966) era um engenheiro aeronáutico soviético. Mas não um engenheiro qualquer, pois além de sua formação ele possuía excepcionais habilidades na integração do design, organização e planejamento estratégico. Nos anos 1950, ele se tornou o chefe do projeto espacial da URSS, e sob sua batuta os soviéticos lançaram o primeiro satélite espacial (1957), o primeiro ser vivo a orbitar a terra (a cachorrinha Laika, um mês depois) , o primeiro homem no espaço ( Yuri Gagarin -1961) e provavelmente teriam chegado a Lua antes dos americanos se Korolev não morresse precocemente em 1966 aos 59 anos.

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Sergei Korolev

E porque ele morreu tão cedo ? As respostas são terríveis. Em 1938 , durante o brutal regime de Stalin, Korolev foi preso injustamente , torturado e enviado para um campo de trabalhos forçados na gelada Sibéria, onde as condições de trabalho eram as piores possíveis (sem roupas quentes e com pouca comida, milhares de prisioneiros morriam todos os meses). Quando abrandaram sua sentença em 1939, ele já havia perdido a maior parte dos seus dentes. Enviado para uma prisão onde podia trabalhar em projetos de aviação , seus talentos despontariam brilhantemente nos anos seguintes, mas ele nunca recuperaria plenamente a saúde.

Libertado, passou a chefiar o projeto espacial soviético, mantendo o seu país sempre a frente dos EUA na corrida espacial. Ele ganhou dezenas de prêmios na União Soviética por seu trabalho excepcional, e até o Comitê do Prêmio Nobel em Oslo queria laureá-lo, mas o governo da URSS vetou se nome para evitar ciumeira entre seus projetistas de foguetes!

Workaholic, teve um ataque cardíaco aos 53 anos (o primeiro de uma série) além de sofrer de insuficiência renal crônica . Precisou ser hospitalizado várias vezes ao longo dos anos seguintes. Tragicamente em 1966 , internado para o que deveria ser um procedimento cirúrgico simples, seu quadro evolui para um sangramento descontrolado no abdômen. Os médicos precisavam entuba-lo, mas suas mandíbulas, terrivelmente machucadas sob a tortura em 1938 (e que nunca cicatrizaram adequadamente) impediram que isso fosse feito. Ele morreu nove dias depois, sem jamais recobrar a consciência.

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Altas autoridades da URSS, inclusive Brezhnev, carregam o caixão de Korolev. A direita, seu túmulo no Kremlin

Depois de sua morte, a União Soviética nunca mais recuperou a primazia sobre os Estados Unidos, os quais chegaram a  Lua apenas três anos depois.
Mas o aviltamento de seus melhores filhos pela madrasta URSS não parava aí. Parte da elite intelectual fugiu da União Soviética e seus países satélites naquela época em direção ao Ocidente buscando uma vida melhor. Gente do calibre do escritor Aleksandr Solzhenitsyn (Prêmio Nobel de Literatura em 1970), o general Pyotr Grigorenko, os bailarinos Rudolf Nureyev e Mikhail Baryshnikov , o maestro Mstislav Rostropovich (que ganharia dezenas de prêmios, inclusive um Grammy), a tenista Martina Navratilova, o diretor de cinema Miloš Forman, e a medalhista olímpica Nadia Comăneci, os enxadristas campeões Viktor Korchnoi e Boris Spassky, só para começar.
Nenhuma sociedade sobrevive a esta sangria de cérebros, pois não se repõe talentos brilhantes assim da noite para o dia.

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O gigantesco foguete R-7, projeto da equipe de Korolev

Era isto ou ser condenado ao exílio interno, como aconteceu com o físico nuclear Andrei Sakharov (Nobel da Paz, 1975) e sua esposa, a ativista de direitos humanos Yelena Bonner bem como o matemático Natan Sharansky. Andrey Tupolev, um engenheiro aeronáutico do mesmo top de Korolev, era obrigado a projetar seus aviões na cadeia !!!

Não há país que consiga seguir em frente  tratando desta forma seus filhos que mais se destacaram. Na tentativa de acabar com a fuga de cérebros, a extinta Alemanha Oriental ergueu o muro de Berlim em 1961, um extenso e policiado complexo de altas cercas de concreto ou eletrificadas, complementadas por campos minados e guardas armados até os dentes.

No contraponto disto, tínhamos os EUA e a Europa, onde desigualdades sociais a parte, o cidadão tinha liberdade para fazer o que bem entendesse , falar o que lhe desse na veneta e por aí vai. Parece caótico, mas sociedades livres são mais produtivas, porque as pessoas podem tomar as iniciativas que acham mais válidas. Enquanto a URSS se vingava de seus dissidentes, internando muitos deles compulsoriamente em clínicas psiquiátricas, nos EUA os descontentes locais aprimoravam a sociedade em passeatas e protestos contra o establishment. A convivência e a tolerância com a diversidade ideológica contribuiu muito para expandir a consciência do Ocidente.

Embora talentos ainda possam vir florescer sob a sombra da adversidade, eles precisam do oxigênio da liberdade para adquirir viço !
Felizmente, não existe paralelo entre Brasil e URSS neste aspecto. Nosso povo não tem inclinações totalitárias e nem é conivente com extremismos. Mas por caminhos diferentes e de maneiras diversas, ainda desperdiçamos talentos, seja por abandono,  por preconceito, ou mesmo por puro descaso.

É hora de acordarmos para o fato de que nas favelas das grandes cidades ou nos sertões do Brasil profundo, perdemos a todo momento milhares de brasileirinhos que poderiam vir a se tornar um Korolev, um Einstein, mas que não chegarão lá porque não tem acesso a água tratada, a educação ou a cidadania. Precisamos nos conscientizar que, independente das riquezas naturais como minério de ferro ou petróleo, nosso maior capital é nossa gente, os Josés, as Marias, os Ribamar da vida, que com sua fé na vida e vontade de trabalhar, constroem todo dia este País.
O Brasil é viável porque tem pessoas maravilhosas. Está na hora de cuidarmos dessa gente !

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Uma das inúmeras estátuas de Korolev que existem na Rússia

Clique aqui para saber mais sobre o Muro de Berlim:

https://www.youtube.com/watch?v=LcuaaOnOJ-g

O ÂMAGO DA INVESTIGAÇÃO DE UM ACIDENTE AÉREO

Quer queiramos ou não, há duas verdades a respeito de acidentes na aviação :

A- Como ainda não se descobriu um método cem por cento eficaz de evitar que ocorram , o que pode ser feito é diminuir a  freqüência com que se sucedem e a probabilidade que venham a se repetir pela mesmas causas e

B- Paradoxalmente, a aviação se torna mais segura depois de um revés. E é sobre esta segurança que vamos falar hoje.

As mudanças pelas quais a aviação passará após um acidente só serão eficazes se a investigação do mesmo for conduzida da maneira mais cristalina possível. E esta transparência só é atendida se nos prendermos a alguns princípios, dentre os quais destacamos:

1- Os investigadores não podem nem devem se deixar influenciar por pressões, sejam elas de cunho institucional, hierárquico, ou mesmo familiar. Eles devem se despir de suas paixões,  servir a suas consciências e atender o firme e inabalável propósito de melhorar a aviação através de análise isenta e recomendações frutíferas;

2- Devem ser buscadas as motivações humanas pois , via de regra, é nelas que repousam as causas de um acidente. Ora, alguns hão de argumentar que a degradação de condições meteorológicas em rota, só para citar um exemplo, está acima de nossas vontades e  de nosso controle. É verdade, mas o ato de desafiar estas conjunções, planejar um itinerário menor que as atravesse ou menosprezar seu risco é uma faceta da natureza humana, e devem ser investigados seus motivos;

3- Todas condicionantes precisam ser consideradas, mas há uma delas  em especial que deve ser analisada com lupa especial: trata-se dos contingenciamentos financeiros. Segurança de vôo implica custos e, se em algum momento, o orçamento à ela destinado foi minorado, pode ser uma pista inicial bastante promissora;

4- Os investigadores devem ter em mente que em suas mãos repousa boa parte do futuro da aviação. Assim sendo, precisam elaborar análises que impactem positivamente o futuro desta atividade, e isto só é possível mediante uma condução muito honesta e consciente do processo por parte de seus agentes.

No mínimo, devemos muito respeito à memória das vítimas e seus familiares.

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O Capitão de Mar e Guerra Glenn Ford

Para ilustrar nosso artigo,  disponibilizamos o trailer do filme “O destino é o caçador” (Fate is the hunter), de 1964, onde um obstinado ex-piloto vivido por Glenn Ford tenta provar a inocência  do amigo falecido em acidente aeronáutico no início da era do jato.

Por curiosidade, Ford, (1916-2006) além de ator, foi oficial da marinha dos EUA (US Navy) nos anos da Segunda Guerra Mundial, tendo atingido o posto de Captain (Capitão de Mar e Guerra).

O filme é baseado no livro de mesmo nome de Ernest. K. Gann, uma leitura que sugiro a todos.

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SERENIDADE, MATURIDADE E CONSCIÊNCIA: ALICERCES DA LIDERANÇA (TERCEIRA PARTE)

 

Em adição aos posts anteriores, hoje vamos tratar de um dos atributos mais importantes dentre os que compõem a liderança: a consciência. Se por um lado a serenidade preserva o equilíbrio do líder e a maturidade lhe confere sabedoria, é a consciência que, lastreando suas decisões numa percepção consistente do mundo , lhe confere legitimidade.

O líder precisa perceber as complexidades do ambiente a sua volta e quantificar o impacto de suas decisões, uma vez que lhe é dado o poder de arbitrar sobre as vidas e destinos de seus semelhantes.

A liderança desprovida de lucidez conduz a desastres muitas vezes até maiores do que aqueles provocados pela inação ou anarquia.
Consciência nas decisões é composta por experiência mesclada com bom senso e temperada pelo caráter. A busca do bem deve ser sempre a baliza maior da liderança.

Vamos ilustrar a importância da consciência com uma história muito controversa que aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial na França ocupada:

No verão de 1944, Paris se encontrava sob controle do exército alemão. Comandava a guarnição militar da cidade o general Dietrich Von Choltitz (1894-1966). Naquele abafado agosto europeu, já faziam dois meses que as tropas aliadas haviam desembarcado na Normandia, então era iminente a queda da Cidade Luz. Assumindo o comando daquela praça de guerra no dia 7 daquele mês, Choltitz teria recebido ordens de Hitler no sentido de destruir a cidade com explosivos, transformando-a num monte de escombros nos mesmos moldes de Stalingrado, Varsóvia e tantas outras.

As cargas de dinamite foram então instaladas e bastaria um comando seu para que a detonação ocorresse, transformando instantaneamente um dos grandes tesouros arquitetônicos da cultura ocidental em ruínas fumegantes. Mas ele nunca chegou a dar essa ordem.
Ao invés disso, Von Choltitz e seus homens capitularam em 25 de agosto de 1944. Reza a lenda que ele teria recebido um inquietante telefonema de Hitler com s seguinte pergunta:

– “General, Paris está em chamas ? “

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Mas Paris estava intacta, pois Choltitz não obedeceu às determinações de Hitler e se rendeu ao General Leclercq e ao comandante da Forças francesas do interior, coronel Henri Rol-Tanguy. E é neste ponto que começamos nossos questionamentos.

O que leva um aguerrido e experiente general – que já lutara na Holanda, Itália e Rússia, além de ser um veterano da Primeira Guerra Mundial- a se recusar a cumprir uma ordem (ordem esta que veio dos lábios de um dos ditadores mais sanguinários que a humanidade já conheceu) ?
Existem várias versões para essa decisão . Vamos analisar apenas três delas :

1- Choltitz tinha razoável dose de certeza de que a Alemanha perderia a guerra e que era militarmente inútil sacrificar uma cidade diante de tais circunstãncias;

2- O general se apaixonou pela bela capital francesa (o que convenhamos, não é lá muito difícil !) ou

3- Ele percebeu que Hitler enlouquecera ao emitir uma ordem tão bárbara .
Ou até mesmo uma combinação destas três hipóteses.

Apesar dos historiadores contemporâneos não terem chegado a um consenso sobre o(s) verdadeiro (s) motivo(s) que levaram Choltitz a poupar Paris, uma coisa não pode ser negada: a consciência do general falou muito alto naquele momento. Ela sobrepujou suas convicções políticas, a doutrinação nazista e mesmo sua formação militar. Seu senso humanitário foi determinante, inobstante o fato de sua decisão colocar a própria família do general sob risco de represálias de Hitler.

Passadas sete décadas daquele verão, França e Alemanha são parceiras comerciais e políticas. Talvez esses laços não fossem tão fortes hoje se Choltitz tivesse arrasado Paris. Permaneceriam mágoas. Certamente haveria trincas nesta aliança tão delicada.
O que aprendemos com isto é a lição de que boas decisões tomadas por lideranças conscientes costumam produzir frutos que perduram positivamente pelas gerações vindouras. Isto chama-se legado.

Von Choltitz morreu em 1966, vitimado por enfermidades causadas pela guerra. Levou uma vida modesta até falecer, mas diversas altas autoridades militares francesas compareceram a seu enterro na Alemanha para prestar uma última homenagem ao homem que salvou Paris.

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Para enriquecer  o texto, disponibilizamos o trailer do filme “Diplomacia” (2014) . A seguir assista a um clip com cenas do filme “Paris está em chamas ” (1966)

https://www.youtube.com/watch?v=rO6jcH5khvE

https://www.youtube.com/watch?v=s7wkMqF9hqc

 

SERENIDADE, MATURIDADE E CONSCIÊNCIA: ALICERCES DA LIDERANÇA (SEGUNDA PARTE)

Prosseguindo em nosso artigo, hoje vamos discorrer sobre a importância da maturidade para a formação de uma boa liderança. Costumo dizer que a maturidade é aquela fase da vida em que Você começa a se arrepender menos das decisões que tomou, de vez que as consequências das mesmas, se por um lado não apresentam todos os resultados positivos pretendidos, também já não costumam causar tanto dano!

Maturidade é equilíbrio, ponderação, é preocupação com a maneira como nossos atos afetam a vida de nosso semelhante. O líder maduro está sempre preocupado com a seguinte questão : QUEM NÓS SEREMOS DEPOIS QUE EU TOMAR ESTA DECISÃO ? Poderemos viver tranquilamente com suas consequências ? As pessoas estarão vivendo melhor depois que eu decidir desta forma ?

Para ilustrar este ponto de vista , hoje vamos contar a história de um jovem líder que, confrontado com uma grave crise política, tomou uma decisão inegavelmente madura e evitou que milhões de vidas fossem sacrificadas.

John Fitzgerald Kennedy (1917-1963) , alcunhado JFK ou “Jack” foi o mais jovem presidente a vencer uma eleição na história dos Estados Unidos (43 anos de idade em 1960, embora o mais moço a assumir esse cargo foi o vice Theodore Roosevelt aos 42 anos em 1901 por falecimento do titular).

Em outubro de 1962, aviões de reconhecimento Força Aérea dos EUA detectaram a presença de bases lançadoras de mísseis nucleares soviéticas em território cubano, os quais poderiam atingir rapidamente as cidades mais populosas dos EUA, haja visto que a costa americana se localizava apenas 150 km dali (vide mapa abaixo):

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Kennedy se viu em meio a um perigoso dilema: se deixasse que os mísseis permanecessem onde já estavam pareceria um líder fraco e seria um eterno refém dos soviéticos. Mais do mesmo poderia vir em seguida . Por outro lado, se optasse por invadir Cuba, poderia iniciar a Terceira Guerra Mundial.

Ele tomou uma decisão inesperadamente sensata: resolveu negociar com os soviéticos. Assim sendo, após 13 dias de tensas conversações, enquanto a Marinha Americana bloqueava Cuba por mar (e o resto do planeta prendia a respiração), ficou acordado que os russos retirariam os mísseis e em contrapartida os americanos cumpririam um protocolo secreto de desarmar seus artefatos similares na Turquia e Itália cujo alvo era a URSS.

Para que desentendimentos assim não se repetissem, uma “hotline” (linha direta de comunicações) também seria criada entre Washington e Moscou, o famoso “telefone vermelho”.
Então, embora nunca tenhamos chegado tão perto de uma guerra nuclear, a paz se fez com serenidade.

Porque Kennedy acertou tanto ? Vamos enumerar três razões (embora haja muitas mais):

1- Ele foi intensa e extensivamente preparado para o cargo de Presidente da República desde a juventude . Quando seu pai foi embaixador na Inglaterra, o jovem Jack o assistia em suas funções. Posteriormente , lutou na Marinha na Segunda Guerra Mundial, de onde voltou como herói condecorado. Esta curta, mas vitoriosa carreira militar angariou-lhe a confiança do eleitorado, o qual o elegeu para o Congresso, primeiro como deputado e depois como senador. Aprendamos então: experiência cultivada numa mente naturalmente aberta ao aprendizado muitas vezes conta mais do que a simples idade cronológica do líder;

2- Kennedy procurou pessoas do outro lado com quem pudesse negociar. Ele sabia que, independentemente do totalitarismo soviético, havia pessoas ali com quem poderia conversar e chegar a um consenso que fosse benéfico para ambos os lados. Ele respeitou seus adversários, procurando se colocar no lugar do líder soviético Nikita Kruschev e oferecendo alternativas honrosas para o mesmo, buscando estabelecer uma base de confiança, negociando com franqueza e cumprindo o acordado. Quando acabou, determinou que as redes de TV e rádio dos EUA não disseminassem a solução do conflito como uma vitória americana. Verdadeiros líderes são construtores de pontes; e

3- Mesmo jovem à época dos fatos (apenas 45 anos), ele soube resistir habilidosamente às pressões de seus generais e conselheiros mais velhos, os quais desejavam um ataque à Cuba. Kennedy não pôs mais gasolina na fogueira – muito pelo contrário, ele chamou os bombeiros. Líderes autênticos analisam fatos com isenção de ânimos.

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O modus operandi de JFK na Crise dos Mísseis é um exemplo sólido do que o líder maduro deve ser: seguro, centrado, bom ouvinte, ponderado e perspicaz. A passagem do tempo acabou por provar que ele estava certo em sua moderação.

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Assista o trailer do filme “Os treze dias que abalaram o mundo”, com Kevin Costner: