AS PONTES QUE NOS AGIGANTAM E OS MUROS QUE NOS APEQUENAM

” Para unir-se,  é preciso amar-se.

Para amar-se, é preciso conhecer-se.

Para conhecer-se,   é preciso ir ao encontro um do outro.”

(Papa João XXIII)

Morei certa vez num prédio onde havia um funcionário que viera de Angola. Esforçado e bem humorado, trabalhou duro e foi com muita alegria que certo dia cheguei do trabalho e percebi que ele substituíra o  macacão dos serviços gerais pelo terno da portaria,  pois fora promovido pela empresa terceirizada que nos prestava serviços. E, eu tenho certeza que ele não vai parar por aí, pois tem a natural garra e senso de empreendedorismo que a maioria dos imigrantes carrega consigo. A mesma vontade de vencer na vida que fez com que meus avós, também imigrantes pobres, viessem da Europa para o Brasil. Sem isso uma boa parte dos brasileiros sequer estaria aqui hoje.

Imigração é manancial de ideias e fonte de força laboral que impulsiona a economia. Chegamos ao ponto atual, nós humanos como civilização, porque nos integramos e superamos barreiras. Conseguimos transformar diferenças em simbiose, e daí proporcionar bem comum. Sociedades que se abriram a novas ideias e conceitos conseguiram formular soluções, proporcionar avanços e construir um futuro melhor. Foi assim com os EUA, Brasil, Canadá, Austrália, Israel e Argentina, países que receberam imigrantes de braços abertos durante boa parte de sua história. Foi o caldo cultural que estes lugares amealharam que permitiu suas realizações positivas. O que seria do programa nuclear americano se não fosse a força de trabalho de cientistas imigrantes que se refugiara do nazi-fascismo europeu sob o guarda-chuva democrático dos EUA?

Dito isso, vejo com muita tristeza a proliferação de muros que ocorre mundo afora em nossos dias: na Europa, no Oriente Médio e agora na América. E isso me faz pensar que não vão longe os dias em que EUA e Inglaterra se uniram na então maior ponte aérea da história, na Berlim de 1948 cercada pelos soviéticos. Dois milhões de berlinenses, foram salvos do frio e da fome pelo carvão e alimentos que os aviões dos países com os quais haviam estado em guerra até três anos antes trouxeram. E agora os mesmos Estados Unidos pretendem construir um muro em suas fronteiras.

Então, eu pergunto o seguinte: passados sete décadas desta façanha de solidariedade, o que foi que deu errado? O que mudou em nossa civilização, onde foi que nos perdemos de nossos melhores momentos?  Será que alguém acredita que vamos conseguir chegar a algum lugar erguendo caríssimas barreiras que nos dão a sensação (ainda mais cara) de que vai tudo bem, que os problemas que forçam as pessoas a se moverem de um país para outro vão deixar de nos afetar porque ficaram do outro lado da cerca?

Vamos, também, mencionar o contraponto e dar voz àqueles que argumentam que deve haver controles e limites à imigração, pois eles têm a sua legítima parcela de razão. Isto pode (e deve) ser feito, sem a maior sombra de dúvidas. Mas, o que não se deve (nem se pode) ser feito é institucionalizar o preconceito, materializá-lo na forma de muros e cercas e desfigurar o caráter das modernas democracias,  as quais sempre representaram porto seguro para pessoas com esperança de dias melhores.

Se tudo isto não bastar, lembro que, ao negar asilo aos refugiados de países que estão em guerra (com as quais, aliás, as potências sempre lucram vendendo armas), não estamos apenas impedindo que estas pessoas vivam em nossos países: muitas vezes, as estamos enviando de volta para que morram no país delas.

E como sempre, para reflexão, eu deixo Vocês com um trecho de filme. O de hoje é “Tempos de paz”, uma sensacional interpretação de Tony Ramos e Dan Stulbach, que traz a história de um imigrante polonês tentando entrar no Brasil em 1945. Sim, nós também já tivemos nossos muros, e hoje eles muito nos envergonham.

Conheça a história da Ponte Aérea de Berlim em :

UMA MENSAGEM ESQUECIDA DE PÁSCOA: AVIÕES, CHOCOLATES E SOLIDARIEDADE

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2 Comments

  1. Velho General…talvez, assim com as pessoas e lideres tornam-se obsoletas, as ideias e premissas humanas também…talvez democracia, solidariedade precisem de ferias…precisem se ausentar por uns tempos para voltarem a fazer falta e tornarem-se necessárias outra vez…abç camarada

  2. Pingback: IMIGRAÇÃO, TALENTO E SENSIBILIDADE | Robinson Farinazzo

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