A INOVADORA ENGENHARIA DE AVIAÇÃO DA US NAVY

“Contratamos pessoas que querem fazer as melhores coisas do mundo” Steve Jobs

Alguns especialistas sustentam, com certa razão, que o projeto Lockheed Martin F-35 Lightning II será a última aeronave de combate humanamente pilotada a voar nos Estados Unidos. Verdade ou não, foi longo o caminho que as Forças Armadas daquele país trilharam até a sua concepção, em especial a Marinha  Norte Americana (US Navy), cujos esforços para a obtenção de excelência em projetos e conquista da primazia nos céus vem se intensificando desde os anos 1940. Naquela década, os projetistas aeronáuticos da fábrica Chance Vought entregaram o revolucionário F-4U Corsair, um monomotor tão veloz que tornava temerário seu pouso seguro  a bordo dos porta aviões da US Navy. As autoridades navais só acabaram sendo convencidas da praticabilidade e segurança  desta aeronave graças a seu uso consagrado pela força aeronaval britânica e o Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA (USMC). Seja como for, o Corsair definiria a tônica das aeronaves de combate da US Navy pelas próximos décadas: aviões grandes, velozes e com design de asa inovador, senão arrojado.

As geniais asas do Vought Corsair

Figura 1: As geniais asas do Vought Corsair

O que literalmente catapultava o Corsair a frente dos aviões de sua geração era a filosofia embutida que preconizava que ele deveria ser um avião de caça mais potente do que qualquer coisa que os adversários pudessem colocar nos céus. Desta forma, dotou-se o mesmo com um dos maiores motores disponíveis à época, o Pratt  & Whitney R-2800 Double Wasp. Ora, um motor potente não faz verão sem uma hélice que lhe faça justiça. O problema de hélices de alto rendimento é que elas são grandes em demasia, logo obstruem a visão do piloto e tendem a bater as pontas no solo. A solução imaginada foi aumentar a altura do trem de pouso sem comprometer o posicionamento das asas em relação a fuselagem. Nasceu então um dos desenhos de asa de gaivota invertida mais elegantes de toda a história da aviação, conforme pode ser constatado na figura 1.

O resultado prático disto é que a Marinha Americana doravante passava a contar com um caça embarcado que se transformaria no terror dos pilotos japoneses, sendo apelidado por eles de “whistling death” (morte sibilante). Acabada a Segunda Guerra Mundial, veio o Conflito da Coréia (1950-53), onde novos desafios se apresentaram. O primeiro deles foi o fato de que os adversários do bloco comunista apresentaram um sensacional jato de combate , o MiG-15 ( o qual decretaria aposentadoria precoce de todos os aviões de combate a pistão dos EUA). Levaria quase duas décadas para a Marinha dos EUA reconquistar de forma  definitiva e incontestável o cinturão de campeão dos céus aos soviéticos. Neste meio tempo, os americanos experimentaram todas as soluções possíveis e imagináveis em termos de engenharia aeronáutica. Senão vejamos:

Com o jato Douglas Skyhawk, genial projeto de Ed Heinemann em uso atualmente pela MB , experimentou-se reduzir o tamanho das asas para facilitar hangaragem a bordo, transformando o peso que seria acrescentado por um “gear” de dobragem em “payload” de armamento e combustível. O avião também inovou a o ser pioneiro no uso do sistema buddy-to-buddy, aonde uma aeronave reabastece em voo outra de modelo similar. Este sistema teve uma aprovação tão grande que até hoje é empregado na família Boeing F/A-18E/F Super Hornet. Por ironia Heinemann, que chegou a chefe de projetistas da fábrica de aviões Douglas, cursou apenas o segundo grau…

Depois veio o bombardeiro/reconhecedor RA-5C Vigilante (fig. 2), um avião supersônico, apto a operar embarcado e capaz de transportar um bomba nuclear. Detalhe : não tinha ailerons!

O North American RA-5C Vigilante, com a bomba nuclear em detalhe

Figura 2: O North American RA-5C Vigilante, com a bomba nuclear em detalhe

Havia ainda o problema de defesa aérea dos comboios mercantes em regiões onde os porta aviões não pudessem estar presentes. Para tal, imaginou-se uma aeronave de decolagem vertical com hélices contra-rotativas, a qual poderia se basear numa fragata ou embarcação similar,  o Convair XFY Pogo. Muito difícil de pousar, ele voou pouco e não durou muito.

O Grumman A-6 Intruder que muito provavelmente  se tornou o modelo de aeronave de “Jamming” mais bem sucedido da história da aviação, tinha em seu protótipo um configuração de motores com bocais variáveis visando aproveitar melhor a potência do exaustor.

Convair XFY POGO vertical e o Intruder com escapamento de jatos "Tilt"

Figura 3: Convair XFY POGO vertical e o Intruder com escapamento de jatos “Tilt”

Mas a imaginação dos projetistas  nunca foi tão prodiga quanto no quesito asas. No caso do Vought F-8 Crusader, experimentou-se asas de incidência variável (não confundir com os F-14 Tomcat com asas de geometria variável, estes pós Vietnam). Ambas aeronaves são supersônicas.

F-8 Crusader abaixando as asas para pouso e F-14 com geometria variável

Figura 4: F-8 Crusader abaixando as asas para pouso e F-14 com geometria variável

Falando em Vietnam, é bom lembrar que esta guerra legou a US Navy várias lições, a maior parte delas consolidada no famoso “Relatório Ault”, do Capitão de Mar e Guerra Frank Ault, um documento atual até os dias de hoje em sua sinceridade e nível de detalhamento. A primeira delas era que a aviação de combate não poderia prescindir do uso de canhões em dogfights (combates aéreos), dado o fato de que os mísseis ar ar ainda não haviam se consolidado como maravilhas infalíveis. Como resultado, doravante todos os seus jatos carregariam seu próprio canhão de 20 mm.

A segunda foi a necessidade de um melhor treinamento. Criou-se então a famosa escola “Top Gun” (a atual Naval Strike and Air Warfare Center), em princípio destinada apenas a melhorar a performance dos pilotos, mas que hoje, num conceito mais amplo e integrado se dedica a treinar os “Wizzo” (WSO, Weapons System Officer, oficial de sistemas de armamentos) pilotos de helicópteros e controladores táticos. O resultado é a formação de uma mentalidade de combate disseminada amplamente na Marinha e que beneficiou os esquadrões operativos na forma de tripulantes mais capacitados e melhor preparados para exercer suas funções. Foi um enorme salto qualitativo (investir na formação de pessoal sempre é).

A partir dos anos 1990 , premida pelos altos custos e visando simplificar a cadeia logística e facilitar o treinamento, a US Navy operou uma radical transformação de seu inventário embarcado, conforme observado na tabela abaixo*:

MISSÃO

PERÍODO

1970/1980

1990 / 2010 FUTURO

AERONAVE

Ataque

A-6E Intruder

F/A-18E/F

F-35C Lightning II

Defesa da Frota

F-14B

F/A-18E/F

F-35C Lightning II

Jamming

EA-6B Intruder

EA-18G Growler

Drones

Anti Submarino

S-3A Viking

He SeaHawk

V-22 Osprey

SAR / Emprego Geral

He SeaSprite/C-2 COD

He SeaHawk/C-2 COD

V-22 Osprey

Obs.: Considerados apenas esquadrões embarcados em porta aviões nucleares. Não foram abordadas aeronaves AEW.

Esta transformação, por eliminar alguns tipos de aeronaves em proveito de modelos polivalentes descomplicou sobremaneira o planejamento logístico e diminuiu os custos de manutenção e treinamento da frota aeronaval.

Para o século XXI, a US Navy adotou dois conceitos no limite do futurismo, de vez que eram para lá de revolucionários. O primeiro foi o Bell-Boeing V-22 Osprey, de características “tiltrotor” (isto é, motores basculantes), o qual alia a versatilidade de pouso e decolagem de um helicóptero com o payload , alcance e velocidade de uma aeronave de asa fixa.

O segundo deles é o letal (e caríssimo) Lockheed Martin F-35 Lightning II, jato monomotor de ataque, com características stealth , radar AESA, armamento embutido e aviônica de última geração. Além do revolucionário conceito tecnológico, o projeto bilionário inova por  financiar seu desenvolvimento em parceria compartilhada com o Reino Unido, Itália, Holanda, Austrália, Canadá, Dinamarca, Noruega, Turquia e Israel e Cingapura.

Osprey e Lightning: revolucionários

Figura 5: Osprey e Lightning: revolucionários

CONCLUSÕES

Não há qualquer dúvida que a força aeronaval da US Navy é uma história de sucesso, dado o fato que se trata de uma corporação com  capacidade de projeção de poder e imposição da vontade política de seu país em amplitude global. Assim sendo, é interessante colhermos as lições que seu planejamento de engenharia nos ensina:

  • Mantenha por perto os  bons profissionais de sua área de interesse: nos EUA, se eles não estão NA Marinha, com razoável dose de probabilidade estão nas empresas que trabalham PARA a Marinha;
  • Aprenda com seus erros: os planejadores aeronáuticos e os formuladores de doutrina da US Navy não ficaram imobilizados pelos reveses da Coréia e do Vietnam . Eles se levantaram, sacudiram a poeira e fizeram uma aviação naval ainda mais robusta e preparada;
  • Repense continuamente seus métodos e seus meios: até meados de 1980, o portfólio de modelos de aeronaves se renovava praticamente a cada dez anos. Com o final da Guerra Fria os orçamentos ficaram mais enxutos, esta periodicidade aumentou e os modelos ficam mais tempo em serviço, mas continuam a ser continuamente aperfeiçoados em suas capacidades;
  • Invista em seu pessoal e o qualifique: a criação da Naval Strike and Air Warfare Center é um exemplo bem acabado de busca da excelência pelo desenvolvimento contínuo das habilidades do pessoal;
  • Trabalhou-se na DENSIDADE do meio, incrementando sua eficiência. Explicando: se na Coréia e Vietnam a pergunta em voga era  “quantos aviões eu preciso para destruir um alvo”, hoje a questão é “quantos alvos posso destruir com este avião ou com aquele drone”. Qual seja,  poucos meios, mas extremamente eficazes, multiplicando os resultados e diminuindo o risco de exposição dos tripulantes . Sua precisão também contribui para diminuir a chance de danos colaterais aos civis;
  • Busque soluções logísticas simples visando facilitar o trabalho da cadeia envolvida: a adoção do F/A 18 SuperHornet, de características “multirole”, descomplicou manutenção, treinamento, e planejamento;
  • Procure pulverizar seus custos através de parcerias estratégicas , pois desta forma ganha-se nas duas pontas: por um lado, obtém-se um ‘budget” menor e por outro, lucra-se com a sinergia advinda de novas mentalidades e
  • Por fim tenha compromisso com o cliente: a US Navy costuma ser a primeira opção militar do governo dos EUA em caso de conflito, e responde sempre rapidamente e a altura do que dela se espera.
  • A principal razão disto é o fato de que seus profissionais sabem que o país conta com eles e se sentem importantes em função disto.
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